Agradeço a todos que acompanharam o blog durante todo esse tempo. Peço perdão por não continuar mais com esta página, foram idas e voltas, mas desta vez o blog não voltará mais. Chega o seu ponto final. O BLOG Tudo Sobre Eles – Muito Sexo e Cia termina aqui…acredito que ele é tão forte que poderá renascer em alguma outra oportunidade e talvez nem mais como blog. Vou sentir falta de todos os leitores e das segundas em que eu me sentava para escrever, essa página sempre terá meu carinho especial. E sei que o TSELES não vai morrer. Obrigado sempre obrigado!
Já são seis e meia da tarde, preciso apressar-me para chegar a casa dele. O metrô como sempre nesse horário está abarrotado de gente. O caminho mais curto para chegar ao meu destino é embarcar na Consolação na linha amarela e seguir até a República. Tenho uma entrevista com Ubirajara C., 51 anos, analista de sistemas. O conheci na Parada Gay do ano passado, desde aquele dia eu soube que ele daria uma boa história.
Estou no Largo do Arouche, chove muito na cidade, são comuns as chuvas nessa época do ano, estamos no verão. As ruas parecem enormes lagos, eu estou com os sapatos molhados, depois de uma pequena procura pelo prédio do Bira, finalmente o encontro. O porteiro pergunta meu nome, eu digo e o mesmo abre o portão. Eu pergunto – Já estava avisado? – o homem quase sem pescoço e baixo responde – Sim, por isso perguntei seu nome.
Subo até o sétimo andar, e ao chegar encontro o meu entrevistado já na porta, sorridente, usando um short e uma camiseta simples. Gentilmente ele me convida para entrar. O apartamento é enorme, poucos móveis, as sacadas do prédio são realmente formidáveis, é possível admirar a arquitetura da cidade, respirar a poluição dela, além de ouvir o barulho dos carros e pessoas que em grande quantidade circulam por aquela região.
Ubirajara e eu conversamos enquanto colocamos a mesa para o café, típico hábito brasileiro de sempre marcar um encontro e oferecer o cafezinho fresquinho, há uma mesa farta. Comemos e já começamos nosso papo sobre relações e comportamento. Após tomarmos o café, nos sentamos no sofá da sala. Há algumas fotografias no local, observo que uma delas é de sua filha, que tem quinze anos, sim ele teve um filha quando se envolveu com uma mulher em uma época de sua vida. Há outra fotografia que mostra um jovem rapaz, ele me diz que se trata de um de seus namorados, morto pela AIDS, Bira não tem HIV e não sabe também o motivo, diz que foi sorte, seu namorado foi um dos primeiros casos de AIDS no país.
Ligo o gravador, é a primeira vez que uso um gravador em minhas entrevistas. Ele senta-se em uma extremidade do recinto e eu em outra. Estou descalço e bastante confortável. Ele mesmo pediu para que eu tirasse os sapatos.
- É pelo teu conforto, imagina cara, senta aí.
Continuamos nosso bate-papo de forma mais descontraída e íntima.
- Pronto, sou todo ouvidos.
- Então você falava sobre as relações em uma determinada época e hoje? – Pergunto com a intenção de retornar ao que estávamos conversando.
- Eu falava sobre as diferenças sobre as intenções dos relacionamentos, lá na década de setenta e oitenta, e hoje em dia. Quando você conhecia um cara para sair, para paquerar, lá na década de oitenta, você não estava pensando em nada mais sério, você queria sair, assim como hoje, para conhecer alguém, para trepar…enfim. Só que se rolasse uma química maior, isso ia naturalmente para um namoro, quero dizer…as pessoas achavam bacana se envolverem como namorados. Hoje em dia, isso me parece que não é o esperado, o esperado é; as pessoas se envolverem, dar uma trepada, largar e ir de um para outro. E quando caminha para um relacionamento maior, isso não seria o natural, a exceção é ir para um relacionamento mais sério. E as pessoas ficam pensando, – “Ai, mas será que eu quero abrir mão da minha liberdade?”, – “Ai, será que eu quero mesmo namorar?” – Há uma complicação tão enorme para as pessoas se envolverem, se abrirem para um relacionamento afetivo, tudo muito complicado.
“As pessoas fazem todo um questionamento sobre as conveniências de se relacionar. Na década de setenta e oitenta, as pessoas não ficavam pensando nas conveniências, era muito raro as pessoas falarem assim; – ‘Ah, não quero nada, quero ficar livre, quero ficar solto’, hoje se ouve isso; – ‘Ah, não, não quero ninguém no meu pé’. Hoje isso é comum. E eu acho que isso tem a ver com a internet, porque as pessoas se procuram na internet, como se as outras pessoas fossem coisas, e elas acabam agindo no mundo real, como se as pessoas fossem coisas. Elas acabam idealizando uma relação, e encontram uma pessoa para ver se essa se encaixa no ideal que elas construíram. E se essa pessoa não se encaixa no que elas querem, elas tiram e põem outra, elas não estão buscando pessoas, elas estão buscando ideais de relacionamento.”
“Não é assim que eu entendo, eu entendo que quando eu vou conhecer uma pessoa, é claro, que eu vou analisar o caráter, se pessoa é gostosa na cama ou não…eu vou analisar essas coisas todas, mas a pessoa não é descartável para mim. Eu não desenvolvi a minha afetividade dessa forma. Hoje em dia, as pessoas desenvolvem a afetividade delas na base do (ctrl + alt + del), elas estão na internet e de repente o cara falou uma bobagem, apareceu uma foto lá do cara, – ‘Ah, não! É muito peludo.’- ele é muito sei lá o que…o cara aperta o (ctrl) e vai para outra.” Ele fala seu depoimento, sempre gesticulando demais com as mãos, e tenta pôr atrás da orelha o cabelo, mas ele quase não tem mais cabelo, parece mesmo ser um tique (movimento involuntário, mania).
- Não sei se isso ocorre com você, mas parece que a maioria dos caras tem sempre um “script” (roteiro), e você já sabe o que ele vai perguntar. A pergunta que mais ocorre é; – “Você é discreto?”. Já passou isso com você?
Bira ri alto.
- Isso é o que eu chamo de afinidade, isso aqui entre nós. – continua – Os gays discretos, em geral, ficam bem ridículos. Porque está todo mundo entendo que o cara é gay, mas ele está fingindo que ninguém sabe que ele é gay. Então, fica uma mentira deslavada, eu sou um cara que não dá para você perceber que eu sou gay, de boca fechada, se eu abrir a boca, eu sou uma flor. Mas se você me vê apenas parado em um ponto de ônibus, possivelmente você não vai achar que eu sou gay. E assim como eu, muitos homens que investiram na sua masculinidade, não devem parecer gays à primeira vista, e também existem aqueles que parecem, mas não querem parecer, são pessoas que se sentem tensas socialmente, são pessoas que andam mais duro, que olham timidamente, já reparou? – eu não faço menção de responder, apenas continuo ouvindo.
“Um ‘entendido’ (gay, consciente da sua sexualidade, mas prefere mantê-la velada, a palavra parece ter a intenção de evitar a palavra gay, justamente por motivo de discrição), que é aquela categoria em que eles olham sempre pelo canto do olho, como se estivessem sempre cometendo um deslize ou sendo vigiados, daí fica mais evidente que eles são. E existem aqueles que acabam aceitando certos padrões sociais, imaginando que o gay tem a ver com algo feminino, não acho que o gay tem a ver com o feminino. Eu acho que o gay tem a ver com o gay. Mas existem homens mais femininos, a gente poderia assim chamar de delicadeza, assim como há mulheres com trejeitos mais masculinos. Mas isso não tem nada em absoluto sobre quem dá e quem come. Isso não tem porra nenhuma a ver. Se não tiver um, não tem o outro.”
- Quando eu te conheci, naquela noite na mesa de bar da Vieira de Carvalho, no Vermont, você comentou que tem preferência por pessoas mais jovens.
Muitas vezes o cara com a minha idade é magoado com a vida, amargurado ou então já sofreu muito de amor. Cara, eu já sofri de amor pra caralho! Não vou nem contar… – ele solta mais uma gargalhada alta. Mas eu tenho essa vontade de ir atrás, de encontrar. Os caras da minha idade, em geral, começam a ficar ranzinzas, exigentes demais. Uma criança de cinco anos aprende brincando, um cara de vinte e poucos anos aprende enchendo a cara na balada, agora só porque eu fiquei velho eu tenho que ficar em casa fazendo tricô? Tá boa? Eu preciso continuar aprendendo com as pessoas.
O telefone toca, eu recolho o gravador e trato de apertar o botão de “pause”. Quando ele desliga e retorna ao seu lugar eu pergunto;
- Então o que há de bom nos relacionamentos, para não haver motivo para tanto questionamento? Afinal, nem tudo é bom numa relação. Há certos momentos em que você precisa ficar sozinho, porque você não se sente preparado para uma relação, você acredita que existe esse momento de se estar preparado para tal? – Pergunto, enquanto me apoio na almofada do sofá.
Difícil, você desenvolver uma relação com uma pessoa que não compartilha das suas coisas íntimas. Por exemplo, eu gosto de ópera, eu não preciso que a pessoa goste de ópera para me curtir (gostar), ela pode gostar de bandas que eu nem sei o nome, mas isso quer dizer que a gente gosta de música, seja ela qual for. Hoje em dia, existe uma lista extensa de critérios, sabe? – Ele insiste em usar a palavra pessoa.
“Acredito que tem momentos em que você quer se relacionar, tem momentos que você não quer. Acho que como a gente vai aprendendo a viver sozinho, porque as pessoas estão muito sozinhas, elas acabam adquirindo um hábito de ter um conforto em viver sozinhas. E encontrar alguém e se abrir, não necessariamente você vai ter esse conforto. Por exemplo; eu quero assistir a novela das oito e eu estou namorando um cara que quer assistir futebol, mas só tem uma televisão na minha casa, isso é um inconveniente. Será que isso leva a eu falar; – ‘Puta merda! Que bosta que eu estou namorando, se eu não tivesse namorando, eu ia assistir a novela e foda-se! ’? – Acho que quando você quer dividir e partilhar, alguma coisa, aí é o momento em que você tá aberto para namorar de verdade. Aí você pode negociar.
Ubirajara nasceu em São Paulo, em fevereiro faz 52 anos, ficou alguns meses na Europa, mas nunca pensou em sair da capital paulista. Gosta de viver aqui, na cidade ele tem seu trabalho e família. Bira passou um longo tempo sem relacionamentos, e as relações que teve foram com homens mais novos. Depois de cinco anos sozinho, acaba de conhecer um novo cara.
- Ele fala que eu o roubei, contra todos os prognósticos. Ele não era um cara que estava querendo namorar, mas de alguma forma eu acabei o seduzindo e roubando ele.
Os barulhos dos carros invadem o apartamento.
- Como é a rotina do cotidiano sexual por aqui?
A rotina sexual é o seguinte, tem um Club de sexo aqui, um Cinemão (casas de sexo com exibição de filmes pornôs, em geral, filmes com os próprios garotos de programa que circulam pela região) ali, uma sauna, três boates… – ele dá uma gargalhada. Em 2004, eu só pensava na minha filha, eu praticamente não tinha vida sexual naquela época. Pensar em namorar era a última coisa. Quando eu me mudei para cá eu via aquela muvuca (grande contingente de pessoas) toda, mas eu não me metia, a minha energia sexual não combinava muito aqui. Eu achava que a minha energia combinaria com alguém que eu encontrasse, que a gente batesse um papo, fosse no cinema, que eu conversasse e aí transasse. – ele usa a palavra “energia” – Aí eu comecei a andar por aqui, e fui me envolvendo com o pedaço. Hoje, eu acho que isso… – ele me olha firmemente e alerta – Isso é uma coisa que eu não gosto! Eu acho que eu tenho essa energia do romantismo, do amor, do “conhecer uma pessoa legal”, mas eu também tenho essa energia do “vamos pegar e resolver isso agora” (sexo casual), sabe assim essa coisa da putaria? Hoje, isso é uma coisa mais presente na minha vida, mas não é uma coisa que gosto, mas acontece. Às vezes, eu estou louco de tesão, estou a fim de “dá uma” (transar) e não quero nem saber quem é a pessoa.
“Eu não acho que tem nada de errado em querer só sexo. Mas eu acho engraçado quando a pessoa faz toda uma cena (enrola), quando ela só quer ir para a cama. É errado para quem fica no vazio, para quem queria mais. Mas depois passa logo, porque você sabe que é assim mesmo.”
E como acontecem esses encontros? – Pergunto como se eu fosse inocente sobre esses assuntos sobre como conseguir sexo em São Paulo.
Eu vou à sauna, pago uns trinta paus, aí vejo alguns caras interessantes, rola uma putaria, gozo e acabou. Prefiro isso, sem nem saber quem é. Não por ser grosseiro, conheci gente em sauna, bati um papo, namorei pessoas que eu conheci em sauna. Mas também não é necessário, você pode ir puramente por sexo, desde que seja uma coisa cortês. A tua situação com aquela pessoa é simplesmente uma troca física e pode rolar numa boa. Uma coisa é você fazer um sexo por conveniência, sexo por sexo, mas nesses lugares próprios para sexo, tipo cinemão, clube e até alguma sauna, tem uma energia pesada.
“As pessoas podem encontrar uma pessoa bacana, tomar uma cerveja e conversar, como você pode encontrar gente com uma energia pesada, de gente que está viciada em sexo. Lugar feio sujo e fedido, isso eu não gosto, mas às vezes eu faço isso. Não gosto de fazer isso, mas às vezes eu faço.”
- Você já sentiu que está transando com um cara porque foi o melhor que você conseguiu, ou talvez você seja a única opção para o cara?
- Na balada é assim, o cara bonitão, à uma da manhã, te esnoba, às quatro da manhã, ele está chupando seu pinto, se ele não arrumar outra coisa. Isso já aconteceu muitas vezes comigo. Existe a lei da oferta e da procura. Existe isso no mundo gay, não sei se no heterossexual também; – “Ai esse cara é bom demais pra mim”, – “Ai, é feio demais”, -“Ai, bonito demais”. Eu me acho gostos. Uma vez só, eu estava num lugar de sexo, tinham dois ou três meninos muito bonitinhos e eu passei e falei, brincando, – “Poxa ! Eu passo no meio de vocês e não acontece nada comigo?”, aí um deles falou – “É né, mas por que será?”. Isso me chateou, na cabeça dele eu não estava à sua altura.
Sexo bom…
“O sexo tem essa possibilidade de nos levar para uma degradação. Você ver, por exemplo, em um Cinemão um senhor de 70 anos de calças abaixadas correndo atrás de todo mundo, isso é degradante. Ou então, um menino de 22 anos que vai num clube de sexo, abrir as pernas e quarenta caras comerem e mijarem (urinar) nele. Isso é degradante. Eu não acho que ele precise disso para ter prazer, eu acho que ele pensa que precisa daquilo. Isso é uma coisa que eu não quero, mas é sexo também. Agora, fazer sexo e dormir abraçadinho, ou então você estar com seu namorado e ele não estar a fim de transar, e você diz – “ Tá bom gato, vamos dormir.”- e ficar feliz mesmo assim, isso é fazer sexo e do bom. Depende mais da qualidade do que da quantidade. Sempre teve de tudo, sempre teve putaria, assim como sempre teve gente a fim de casar ou do tipo “eu não chupo porque eu tenho nojo”. Se eu transar cinco vezes por semana com meu namorado, ou que não seja com meu namorado, mesmo que seja com pessoas diferentes, mas que seja com respeito, eu estou fazendo um bom sexo.
- No fundo somos românticos? A gente quer ficar com alguém?
- Não sei sobre ficar com alguém, mas a gente quer afeto. Quer cerveja?
Eu aceito. Depois observo que ele tem a ópera La Traviata, peço para ouvir, é a primeira vez que ouço uma ópera. A obra, dentre muitos outros pontos, questiona sobre o que é sentir amor, é uma questão difícil para quem nunca o sentiu e só conheceu a degradação dos sentimentos. Talvez o amor esteja mais próximo do que imaginamos, quem sabe dentro de nós mesmos e quando o encontrarmos com certeza será tão grande que iremos ter vontade de dividi-lo.
Conhecemo-nos na fila da boate A LOCA, ele estava bêbado e a fim de confusão, gritava muito e tentou até me bater simplesmente porque não foi com a minha cara, nesse momento fiquei tenso, mas seus amigos o impediram. Meu amigo que me acompanhava na fila o conhecia, aliás, têm uma amizade de longa data, perguntei o motivo de esse homem estar tão bravo. Eu soube que se tratava de J. Hélio, 57 anos, administrador de empresas, morador de uma das ruas mais frequentadas por gays, justamente a Rua Frei Caneca, onde estávamos. A causa de tanta raiva deste senhor naquela noite na porta da boate era porque um garoto, que cheguei a vê-lo, especialmente bonito, de olhos verdes, um cabelo castanho escuro e pele branca e delicada, como se nunca houvesse sido tocada, o havia ignorado e não correspondeu aos seus flertes. Ver um homem mais velho irado com a recusa de um garoto despertou minha curiosidade, eu sabia que existia algo muito maior por trás daquela situação e foi aí que quis descobrir a história de J. Hélio.
Depois daquela noite na boate A LOCA, eu tive a oportunidade de sair mais vezes com Peter, meu amigo que me acompanhava na fila, e consequentemente acabei conhecendo melhor, em uma situação não constrangedora, Hélio. Durante um encontro com ele, falei sobre o meu blog e sua proposta de investigação do comportamento e relações homossexuais masculinas na cidade de São Paulo, então o convidei para uma entrevista e J. Hélio aceitou prontamente. Uma semana depois estávamos novamente no mesmo local aonde nos vimos pela primeira vez, o Bar da Loca. Marcamos às 16:00 horas, cheguei com meia hora de atraso por conta da chuva que caia na cidade, ele estava na mesa tomando uma Coca-Cola Diet com limão, usava uma camiseta pólo branca, brinco na orelha, e seu pequeno guarda-chuva preto estava sobre a mesa. Cumprimentamo-nos, pedi um suco de goiaba natural, um dos meus preferidos, e começamos a conversar.
O relato que ouvi se passava no início dos anos setenta. Era a década do “bum” da música popular brasileira (Movimento Tropicália), nomes como Caetano Veloso, Gilbeto Gil, Maria Betânia e Ney Matogrosso, entre outros artistas importantes, compunham músicas com significados dúbios e cantavam em nome de um Brasil livre da ditadura, liberto para expressar e ser definitivamente diversidade. Nessa época, não se permitia nenhuma ideia que fosse considerada como contrária ao “amor incondicional à pátria” e ao pensamento progressista que estava sendo difundido no país. O medo tomava conta de todos naquele momento da história brasileira, exceto daqueles que eram mais subversivos. A censura e a tortura aterrorizavam o país. Em meio a esse cenário, o jovem J. Hélio, então com dezessete anos, deixava sua pequena cidade natal de Cafeara, norte do Paraná, e se mudava para a capital paulista.
No Sul, Hélio havia tido a melhor educação, sabia um pouco de latim e francês, sua família era composta de cearenses, mas morava em uma cidade em que a maior parte dos habitantes era de famílias com descendência europeia tradicionalista rígida.
- “A cidade só tinha gente hipócrita! Era pequena demais, quando tinha sessão de cinema, existia um megafone que fazia um som alto que todos os moradores ouviam e sabiam que naquele dia ia ter filme. – Ele contava em voz alta e todas as pessoas que estavam ao redor da nossa mesa no bar sem querer também acompanhavam a história – E sim, havia sim uma diferença cultural e social entre os habitantes, mas em Cafeara, minha família nunca foi discriminada por ser de origem nordestina, porque nós éramos distintos, apesar de tudo, e muito bonitos. Não tínhamos a cabeça achatada como esses por aí. – Hélio conta com seu ar de prepotência peculiar – Mas sabe por que digo que as pessoas daquela cidade eram hipócritas? Porque todo mundo era “puto” naquele lugar, fingiam ser politicamente corretos, mas não eram. Eu apenas um garoto, acreditava nos valores do catolicismo, no “bom comportamento”, mas tudo isso acabou para mim aos 14 anos. Claro! Depois que o padre da igreja tentou me comer, o quê você queria? O padre disse que queria arregaçar meu pau, eu tinha fimose, sabe? Então, ele mostrou o dele também, era pequeno, mas sabe como é criança? Vê tudo maior, por isso, para mim era um cacete enorme. Mas nunca deixei ele me comer, ele sempre tentou, mas não deixei. Depois disso, aí eu fiquei louco mesmo, transei às escondidas com todo mundo que eu queria transar na cidade. Mulher ou Homem”. – Eu ouvia atentamente ao relato e ri quando ele falou sobre enxergar o pênis do padre como algo enorme.
Já em 1972, a família de J. Hélio, encontrava-se na capital paulista, e tinha sonho de vencer na vida na cidade. O pai de Hélio tinha vontade de montar um negócio, mas todos os negociantes com quem conversou pareciam ter apenas vontade de roubar o homem recém-chegado e deixa-lo na rua com sua esposa e seus sete filhos. Então o pequeno empreendedor cearense resolveu ir para o Mato Grosso do Sul, mas seu filho de dezessete anos decidiu ficar. J. Hélio não pôde resistir.
- “Eu fiquei apaixonado pelo brilho, glamour e força de São Paulo, eu queria ‘trepar’ com todo mundo dessa cidade e disse para meu pai; – Eu vou vencer, eu vou ficar e vencer”.
Por muito tempo morou na casa de sua tia, até brigar com ela e ir embora, a parenta tinha insinuado aos pais de Hélio que o menino era homossexual. Depois de sair da casa da mulher, trabalhou em diversos empregos, morou na Vila Brasilândia e foi ajudado por muitas pessoas humildes que ouviam dele; – Eu não quero isso para mim eu vou chegar longe, eu vou vencer! – Aos dezoito anos, foi convocado para servir ao exército, durante sua preparação no quartel do general do Ibirapuera, houve um incidente que o fez preso político. Ele e mais três garotos foram presos por rabiscarem em uma parede as mensagens; “Abaixo à ditatura disfarçada!”, “Viva à Marinha”, “To be or not to be? That´s the question!” e uma palavra “Abutre” que aludia ao patrulhamento da censura. Passaram algumas semanas na prisão, lá comeram lavagem e presenciaram a tortura de outros presos políticos, foram fichados e passaram por situações humilhantes.
- “Na prisão, entre os garotos presos comigo, havia um garoto muito bonito, chamado Montovani. Houve uma noite em que ele acariciou meu pau, e eu fiquei um pouco assustado. Na manhã seguinte, contei para os outros garotos que ele era homossexual e os dois foram para cima dele perguntar sobre o que eu estava falando. Ele assumiu mesmo, – sou mesmo e daí, isso não é errado. – Então ele começou a mencionar algumas personalidade da época que eram declaradamente homossexuais e a argumentar que não havia problema em ser assim (nos anos setenta a homossexualidade era considerada como doença mental e tratada através da psiquiatria), depois de um tempo fomos separados, eu fui liberto, mas até então não sabia o que havia acontecido com os outros garotos. Na época, ainda encontrei o Montovani, na Xavier de Toledo no centro, mas ele pareceu assustado em me ver e saiu correndo. Não sei o que aconteceu com ele depois que nos separaram na prisão”.
Depois deste episódio, J. Hélio continuou sua luta para vencer e durante seu trajeto descobriu o quanto era bonito, aos dezoito anos conheceu um homem rico que, ao perceber que estava diante de um jovem sem recursos, estudado, dono de uma beleza especial e vulnerável, ofereceu ajuda. Hélio tinha um corpo esguio, cabelos lisos e pretos, pele branca, rosto másculo e com uma pequena cicatriz, segundo ele, é dono de um pênis muito grande, tanto que fazia volume na calça, seu ar infantil e inocente combinado com sua boa aparência seduzia a todos, homens e mulheres da cidade. Foi comparado a Pedro Aguinaga, garoto propaganda da época, de enorme sucesso por conta da beleza. Conhecer seu primeiro “cuidador” era o início da luta para vencer a cidade de concreto. O jovem Hélio disfrutou de muito conforto com esse homem que o acolheu, mas em troca disto foi violentamente estuprado pelo seu “guardião”, era o preço para sobreviver na selva de pedra. Depois desse, vieram outros “cuidadores” também.
J. Hélio - Neste ano, viajando por Paris, um pintor faz seu retrato.
- “Na noite em que fui violentado, tomei banho de leite para me purificar, mas depois eu acabei cedendo e transava com ele”.
O segundo “cuidador” o levou à Nova York, o ensinou a se vestir melhor, J. Hélio aprendeu sobre gastronomia e ao longo do tempo aumentou sua bagagem cultural. Nesse momento, Hélio já não se preocupava mais em trocar prazeres, ele oferecia seu cacete e em troca conseguia levar o estilo de vida que sempre quis.
- “Não me sentia mal com isso, eu nem cobrava nada, eu apenas recebia os presentes, eu havia começado a trabalhar em um escritório e com isso tocava meus planos. Mas como todo gay eu precisava de luxo, conforto e prazer. Nunca menti, sempre disse aos caras com quem eu saia, estou com você porque é bonito, rico e me dá tesão. – enquanto falava Hélio trocava olhares com algumas pessoas que estavam no local – Sempre fui bonito, eu era comparado ao Pedro Aguinaga, já ouviu falar? Ele foi o homem mais bonito do Brasil. Ouvi dizer que agora mora em Copacabana e está mais velho do que eu. A beleza e juventude valem mais que um milhão de dólares, pode acreditar. Eu transei com todos que eu quis, todos mesmo, era gostoso dar aqueles beijos longos em caras lindos como eu, dava prazer exibir, para os que estavam ao redor, aquela estética. Mas não vou mentir, já fodi com os feios também, não esnobava eles não, até descobri muitas coisas neles”. – Como o quê? – eu pergunto. – “Oras! Uma bunda bonita, um pau gostoso, um beijo gostoso, entre outras coisas que nem sempre os caras mais bonitos possuíam”.
Por muito tempo, J. Hélio foi o “garanhão da cidade”, segundo seu relato, conseguir transar com ele era um privilégio, Hélio adorava afirmar sua beleza que até mesmo seduzia homens que se relacionavam com mulheres, era como obter uma vitória, o prazer do desafio e da conquista.
- “Uma vez saí com um jornalista muito feio, ele me disse que não era gay, mas que tinha saído comigo por eu ser bonito e também porque aceitei sair com ele, afinal nem homem nem mulher, aliás, ninguém queria trepar com o cara. Fomos para meu apartamento, eu tirei a roupa, mostrei meu cacete enorme duro, ele ficou louco, sentei no sofá e pedi que o jornalista tirasse a roupa, ele tirou, e falou – E agora Hélio, o que vamos fazer? – eu respondi; – Nada bobo, eu só queria seduzir você mesmo”.
Os anos se passaram. Hélio conta que viveu um grande amor por um médico, mas este apesar de nem se quer ser tão bonito, não o quis, não pôde ama-lo. Foi o primeiro momento em que J. Hélio descobriu que seu poder não era tão onipotente assim, uma decepção amorosa ensinava ao garanhão que ele não podia ter tudo.
- “Para que serve um namorado, para mostrar para os amigos e os outros”?
- Companheirismo talvez, alguém para cuidar realmente de você. – Eu falo.
- “Não, eu cuido de mim. No fundo o que importa para o homem é o prazer, nós somos o tesão e o prazer. Isso, só a beleza e a juventude proporcionam. É bom ter essas duas coisas e melhor ainda é não se apaixonar, ninguém precisa se apaixonar. Eu tive todas as possibilidades de ter quem eu quisesse, todas! Mas estou aqui vivendo muito bem sozinho, no meu apartamento que é meu refúgio”.
J. Hélio me conta que recentemente se apaixonou por um garoto, o tomou como seu “protegido” (um desses jovens, recém-chegados à cidade, em geral sem recursos para se manter, buscam como alternativa usufruir de sua beleza para encontrar um homem que ofereça meios para sobrevivência). O jovem, Alexandrí, arrebatador do coração de Hélio, era recém-chegado do Sul, loiro, segundo J. dono de uma beleza extraordinária, conviveu com J. Hélio durante o tempo suficiente para se firmar na cidade, conseguir uma faculdade e ler toda a biblioteca de seu “cuidador”. Depois disso, o jovem se apaixonou por um médico e foi embora. O ex-garanhão diz ter sofrido muito com a partida do garoto, de vez em quando os dois se veem e Alexandrí parece ser grato ao Hélio, até o convidou para conhecer seu namorado, mas J. disse que ainda não está preparado para isso.
- “Foi o certo ele partir, eu não poderia leva-lo para morar na minha casa lá é meu refúgio. Deixei ele na pensão em que morava, mas paguei a faculdade dele e ofereci outras coisas. Com o médico ele está bem melhor. Por aí, há vários garotos como o Alexandrí, esses dias até transei com o amigo dele, tão bonito quanto ele, esse não teve tanta sorte e acabou no crack, mora na rua, de vez em quando se dá bem e consegue uma trepada em troca de algum conforto”.
- Parece que agora você vive uma inversão de papéis, houve um tempo em que você foi um desses garotos e agora você é um “cuidador”. – Falei e depois de uma virada só bebi meu suco, estava calor e eu com muita sede.
- “Sim, isso é verdade. Naquele dia em que fiquei bravo com aquele garoto na boate da Loca, foi porque ele me esnobou, eu senti vontade de agarrar ele e dizer; – Você não sabe quem eu fui! Todos queriam transar comigo, era um privilégio!- Mas acho que não fiquei com ele porque eu não tive firmeza”.
Nesse momento, meu amigo Peter chegou e nos interrompeu e resolvemos sair para jantarmos juntos. Subimos a Rua Frei Caneca, parei no apartamento de Hélio e ele orgulhoso mostrou suas fotos de quando era jovem, no auge da beleza. Vi as fotografias e definitivamente ele não mentiu, aquele homem foi mesmo dono de uma beleza especial, mas que se perdeu em meio às rugas e as expressões de tristeza que agora compõem seu rosto. Ele deveria ser mesmo o garanhão da cidade. A cidade que ele venceu, sim porque agora ele é dono de um apartamento confortável na Frei Caneca e pretende até comprar outro como investimento. Isso foi um grande feito, para um homem que outrora era apenas um garoto de dezessete anos com um emprego de auxiliar administrativo, hoje é formado em administração, filho de nordestinos, sendo que seu pai era analfabeto, com o passar dos anos e com seus próprios meios ele venceu.
Enquanto subíamos a calçada da Rua Frei Caneca, Peter, Hélio e eu encontramos o garoto daquela noite na fila da boate. Eu o avistei primeiro, depois nós três o fitamos, ele fingiu nem nos ver e atravessou a rua. Apenas continuamos a caminhada em silêncio.
Naquela tarde com J. Hélio eu descobri que tenho medo, temo por achar que talvez este seja realmente o final de tudo. Se a juventude e a beleza são supostamente os fatores determinantes para sermos felizes, o que será de nossos corações quando tivermos perdido tudo isso? Existe um caminho correto para que no fim nossas rugas não expressem um semblante de tristeza? A verdade é que sou jovem demais para responder essas perguntas.
** Comercial Cigarros Chanceller – Pedro Aguinaga
P.S. J. Hélio realmente se parecia com Pedrinho Aguinaga.
***O Homem mais bonito do Brasil
Em 1970, Pedro Aguinaga era um garoto cheio de amigos quando bateu o Gordini da tia na Praia de Botafogo e, para pagar o conserto, se inscreveu num concurso de beleza.
Era a primeira disputa de beleza masculina da TV brasileira, no programa de Flávio Cavalcanti na Tupi.
Pedrinho, como era conhecido, deu as caras, ganhou a primeira etapa, decidiu continuar no concurso e, 12 semanas depois, foi eleito “o homem mais bonito do Brasil”.
Daí em diante, virou lenda. Uma hora, estava em Nova York circulando no Studio 54 com Andy Warhol ou almoçando com Maria Callas num hotel da Quinta Avenida. Em outra, dava pinta na boate da moda em Paris. E colecionava conquistas amorosas. Liza Minelli, Bianca Jagger, Demi Moore, Marisa Berenson… e Monique Evans, com quem teve um filho, Armando.
Fonte – http://porondeanda.multiply.com
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Exatamente no metrô Ana Rosa, este foi o local combinado para sairmos e tomarmos um café. Cheguei faltando apenas cinco minutos para às dezessete horas, o horário marcado. Ele já estava lá, me aproximei e o cumprimentei. Meu entrevistado estava com sua bolsa transversal e seu guarda-chuva grande nas mãos. Mário Boccia e eu nos conhecemos no GIV, a ONG que oferece apoio aos portadores de HIV, lá ele trabalha como voluntário. O Boccia tem 54 anos, mora no centro expandido da cidade, especificamente no bairro Pari, sua profissão é de administrador de empresas.
Após sairmos do metrô fomos até a Rua Cubatão, há, ali perto, um Fran´s Café. Já no lugar, sentamo-nos e fizemos nossos pedidos. Por alguns minutos, jogamos conversar fora e depois partimos para o assunto principal que era ele, sua história. Boccia contou-me sobre diversas coisas a seu respeito e sou grato a ele por haver dividido um pouco de seu íntimo. Fiquei em dúvida sobre o que abordar neste texto. Mas dentre os episódios contados, um me chamou muito à atenção.
Segue o relato.
Durante muito tempo Mario trabalhou em uma empresa multinacional de brinquedos famosa . Ele dividia sua sala com um homem extremamente gordo que, por muitas vezes, gostava de entrar mais tarde no trabalho e sair à noite para não ser tão percebido, tinha vergonha de sua aparência. Boccia e seu colega de sala eram responsáveis por tratar assuntos administrativos a respeito de exportações e importações do escritório.
No âmbito de trabalho, todos sabiam sobre a homossexualidade de Mário Boccia. O respeitavam, até o chamavam para participar de jogos de futebol organizados pelos funcionários.
Boccia no café...
“- Todos me respeitavam, porque eu nunca fui desses gays espalhafatosos, não discrimino, mas sempre fui comedido. Ao contrário de outros homossexuais da empresa que sempre eram satirizados pelos outros colegas. Comigo sempre houve respeito e se rolava uma brincadeira era algo de bom gosto.” – Conta o administrador de empresas.
Apesar do respeito dos colegas, havia uma pessoa que parecia o detestar. E segundo o Mário, ele era mesmo um homofóbico. Tratava-se do judeu, presidente da empresa. O tal chefe fazia questão de não estabelecer contado com o seu funcionário homossexual. Se houvesse algum recado a dar ao Boccia, ele pedia que sua secretária o transmitisse, por telefone, assim como suas ordens e qualquer tipo de comunicação, tudo sempre era intermediado por outra pessoa. Na sala do chefe, se fosse convocado para entrar, o administrador não podia sentar-se, tinha que ouvir as ordens, intermediadas, em pé. Nas reuniões sobre as decisões importantes do escritório, Mário não era convidado e existia uma lista na qual seu nome nunca era incluído. Na sala de refeições, muito especial com almoços generosos, os quais somente convidados podiam adentrar, o administrador jamais recebeu convite.
Mário Boccia conta que esta situação não atrapalhava seu objetivo que sempre foi mostrar o melhor de si, independente das adversidades. E assim seguia sua rotina. Certa vez, seu colega de sala obeso, teve que se ausentar por conta de suas férias. À noite, antes de viajar, o homem deixou uma lista, detalhada de tarefas, a ser cumprida durante sua ausência. Na manhã de sexta-feira, Mário encontrou as anotações de seu colega. Em seguida, recebeu um telefonema da secretária que perguntava a respeito da encomenda do chefe que estava para chegar no aeroporto internacional. Tratava-se de uma arca marroquina, o velho judeu costumava encontrar maneiras de driblar a importação de obras de arte sem pagar tributo, isso graças à ajuda de seu funcionário que ajudava a cuidar desses assuntos e acima de qualquer coisa entregar, por intermédio, a peça ao chefe.
Ele conta tudo entre uma risada e outra, enquanto também toma seu café e come sua torta. Eu ouvia atento à história, meu café e croissant já estavam frios, não os toquei.
“- Eram, mais ou menos, assim essas tarefas, eu arrumava, seja lá como fosse, uma maneira desse judeu recolher suas peças assim que o avião chegasse. Ele simplesmente passava com o carro por debaixo da aeronave e as mercadorias eram colocadas em seu carro.”
Desta vez, Mário ficou surpreso com o telefonema da secretária a respeito de saber como estava o andamento da recepção da arca marroquina. O colega obeso fez uma lista de tarefas detalhadas, mas esqueceu de mencionar esta tarefa, ou segundo Boccia, fez de propósito. O chefe já estava louco de raiva e queria de qualquer jeito sua arca marroquina em sua casa.
Durante horas, o administrador ficou ao telefone negociando e investigando o paradeiro da arca. Soube que a peça havia sido embarcada em outro voo, que naturalmente não era o combinado, por engano. Até o final daquela sexta, não obteve êxito. O telefone tocou um pouco antes de o Boccia encerrar o expediente, a secretária pediu para que Mário comparecesse à sala do chefe.
Em pé o funcionário ouviu;
- Eu tenho uma reunião de negócios nos Estados Unidos, com a Matel. Viajo nesse final de semana e volto na próxima sexta. Só quero avisar que se o senhor não encontrar minha encomenda, nem sequer precisa comparecer na segunda-feira.
Boccia ouviu, pediu licença e se retirou.
Durante uma semana, o funcionário deixou diversas outras tarefas de lado para continuar na busca da arca. Até que seu despachante conseguiu uma licença especial para adentrar ao espaço restrito da Infraero onde ficam objetos e bagagens extraviadas. Mário ao receber o comunicado a respeito da licença, se direcionou ao local. O lugar era enorme e com centenas de altas pilhas de pacotes. Um dos rapazes que controlavam as empilhadeiras auxiliou o Boccia e mesmo depois de uma longa busca, nada de sucesso, começava a surgir o desânimo. Até que outro empilhador, ao examinar uma pilha, encontrou um pacote com a descrição que o administrador tinha dado. E realmente era o objeto. Ao recolher a peça, Mário entrou diretamente no carro e saiu, ao chegar à empresa providenciou a entrega da arca na casa do velho judeu.
Ao final daquela sexta-feira, o prazo esgotou-se, o chefe liga do aeroporto, regressava de sua viagem aos EUA. A secretária retransmite o recado. Informa que o patrão pergunta sobre sua mercadoria. Boccia simplesmente diz a funcionária;
- Diga a ele que ligue novamente quando chegar em casa.
Ele não ligou, naturalmente, devido a sua prepotência.
Na segunda-feira, Mário Boccia entra em sua sala, mais aliviado por ter encontrado a arca perdida. Na manhã de segunda, tentava tocar outras tarefas que ficaram atrasadas devido à busca da obra de arte do chefe. O telefone toca, a secretária informa ao funcionário que ele tem segundos para comparecer à sala do chefe. Ele diz que tem muitas coisas para resolver, mas mesmo assim acata a ordem. Ao entrar na sala, observa que uma reunião juntamente com outros convidados está prestes a começar. Desta vez, ele tem um lugar reservado e pode sentar-se. Mário acompanha toda a reunião. Em geral, no final das reuniões, como sempre, o chefe só cumprimenta algumas pessoas e já se retira. E nessa manhã, não foi diferente. Após fazer isso, o chefe já estava se retirando sem dar nenhum agradecimento ao empregado que se esforçou durante uma semana para encontrar a sua arca. Foi quando, Mário deteve sua saída e disse;
“- Eu fui educado da seguinte maneira, quando alguém nos faz um grande favor, nós agradecemos.” – Houve um silêncio na sala, todos que estavam presentes ficaram perplexos com a atitude de Mário.
Boccia estendeu a mão ao velho judeu que hesitou, mas o cumprimentou. A partir deste dia, Mário passou a ter sempre seu lugar reservado nas reuniões e até mesmo na sala de refeições onde somente os convidados podiam entrar. Na mesa, uma plaquinha com seu nome. As chamadas telefônicas já não eram mais intermediadas pela secretária.
O que Mário Boccia queria compartilhar comigo era a lição de que não importa a sua sexualidade, raça ou cor. Todos têm a obrigação de dar o seu melhor, porque todos possuem o melhor. Não faça um ótimo trabalho apenas para se desvincular de um suposto estereotipo, e sim porque você acredita que pode transformar algo ao seu redor, que isso é realmente importante para sua realização. O judeu pode até ter continuado como um homofóbico filho da mãe, mas ele sabia que tinha em quem confiar numa missão quase impossível. E o Mário não concluiu seu trabalho para retirar um rótulo e sim porque desde o jardim ele sempre quis ser “o número um”, o mais aplicado e cresceu assim. Nossas ações devem corresponder, de forma natural, a quem verdadeiramente somos. Só basta ter coragem de nos conhecermos.
Depois do papo, bebi o café e comi o croissant completamente gelados.
Em busca de respostas para a minha investigação sobre o assunto HIV/AIDS, conheci o GIV. Trata-se de uma ONG que ajuda a pessoas que portam a doença. Meu principal foco era conhecer homossexuais homens da cidade de São Paulo. É quase impossível não abordar este assunto no meio homossexual. Principalmente, quando o vírus teve, nos anos oitenta, o apelido de – “peste gay”.
Li diversos artigos sobre HIV. Pude descobrir que a grande pandemia da doença foi em 5 de junho de 1981. Eu ainda nem havia nascido e muitas das pessoas que conheço também não. O pesadelo surgiu nos Estados Unidos, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças do país emitiam um relatório sobre o aumento incomum de pneumonia, entre “cinco homens gays saudáveis em todos os outros aspectos”. No mês seguinte daquele ano, foram relatados 26 casos na Califórnia e em Nova York. Muitas das pessoas que eram acometidas desenvolviam um sarcoma de Kaposi, um câncer causado pelo vírus do herpes. Era o boom do “câncer gay”.
HIV é uma doença gay - Imagens Google.
Através da leitura de informativos, acompanhei uma linha do tempo desde a origem da doença até os dias atuais. Esses artigos eu os recolhi na ONG GIV a qual estou frequentando na Vila Mariana. A primeira vez que cheguei à porta do GIV era uma sexta-feira, noite e um pouco de chuva. Observei pela janela que havia pessoas dançando, era uma aula de dança. Eu não sabia onde apertar uma campainha e fiquei um pouco perdido. Resolvi bater palmas e uma das pessoas do local veio até a porta e me recebeu. Era o G. A., um homem alto de voz grave, usando óculos, cabelos encaracolados e brancos, usava sapatos simpáticos – all star. O G. sorriu e perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse que ouvi falar sobre o local e gostaria de conhecer. Ele sorriu e pediu que eu voltasse na quarta-feira da semana seguinte.
- Vai encontrar muitas pessoas como você na quarta. – disse ele de forma simpática e acolhedora e me deu um informativo.
A partir deste dia, comecei a frequentar o lugar e a diretoria estava a par de que eu não era um soropositivo e sim um voluntário soronegativo. Durante um jantar da ONG sugiro ao G. uma entrevista para que ele me conte sua história. Ele aceita e agendamos uma data.
Foi em uma quinta-feira que tive a chance de conversar com o G. A., ele é um dos diretores da organização. Entramos em um escritório e nos sentamos para a entrevista. Ele me olha e sorri, retira um maço de cigarros Hilton e acende um. A sala estava com pouca ventilação, mas me comportei como um fumante passivo que não reclama.
Chegada
- De que se trata? – ele pergunta enquanto expira fumaça.
- É sobre você, quero que me conte suas experiências com honestidade. Vamos começar com o que sempre recolho. Idade? Profissão e onde vive? Prefere se revelar?
Ele traga mais um pouco do cigarro, pensa por alguns instantes e responde.
- Não, não quero me revelar. Tenho 52 anos, já fui de tudo nessa vida de jogador de futebol a mecânico. Moro em Itaquera. – Comenta enquanto ri, também acho divertido quando ele me conta que foi até jogador. Depois prossigo.
- Quem é você G.?
- A época era 1984. Eu vivia em um meio bem masculino, jogos de futebol e em consequência disso muitas mulheres e sexo. Eu devo ter filho espalhado para tudo quanto é canto. – ele conta segurando um cigarro – É verdade!
“Eu descobri minha opção ou orientação, ou seja lá o que isso for, quando me apaixonei pela primeira vez por um homem. Foi muito estranho tudo aquilo, era muito novo isso para mim, eu não era mais um adolescente e sim um homem que tinha hábitos masculinos e convivia em um ambiente bem masculino. A respeito da minha família era muito complicado, para minha mãe eu não sabia como contar aquilo. Nós tínhamos uma relação muito forte. Já a minha irmã, acredito que no fundo ela sempre soube, mas de alguma forma ela respeitava o meu tempo e minha decisão de não contar nada.”
Ele continua tragando seu cigarro e revirando sua memória quando faz algumas pausas.
“Certa vez, houve um casamento de uma parenta minha e resolvi levar como acompanhante à festa meu companheiro, todos nos consideravam apenas amigos, apesar de haver certa aproximação entre nós. Ao final de tudo, minha mãe perguntou; – ‘Esse seu amigo é gay?’ – Eu já sobrecarregado com aquela situação de viver às escondidas, falei; ‘É sim e eu também sou! – Depois disso, com o tempo as coisas se ajeitaram.”
Eu fico apenas ouvindo aquela narrativa. Segurando meu pequeno caderno de anotações.
“Depois chegou a vez da minha irmã, lhe falei; ‘Preciso te contar algo.” – ela respondeu; ‘aquilo que eu já sei há muito tempo?’
Ele ri e eu também.
“O homem que levei ao casamento, era meu primeiro amor e me marcou muito. Saí de casa para morar com ele, naquela época não se ouvia quase nada sobre AIDS. Poucas informações, preservativo era caro e não existia essa cultura de se preservar. Nos anos oitenta, o HIV era coisa de Cazuza, algo que parecia distante. Até que meu companheiro ficou muito doente, teve pneumonia forte e ao procurar um médico descobrimos que ele tinha HIV. Naturalmente, fiz também um teste, mas deu negativo, naquela época os testes eram falhos e tinha-se que fazer por mais de uma vez para ter uma confirmação segura. Não fiz isso, eu me apeguei aquele falso negativo e queria ignorar a possibilidade de eu ter esse vírus.”
Acaba o primeiro cigarro e ele saca outro.
“Foi traumático vê-lo morrer, definhar. Era horrível ver as coisas que aconteciam com ele. Eu imaginava que tudo aquilo iria acontecer comigo também. Apesar de me apegar ao falso negativo, aquela dúvida ainda estava na minha cabeça. O fato foi que meu namorado veio a falecer e eu tive que seguir sozinho.”
- O que aconteceu depois? – pergunto.
“Passei um bom tempo sem me relacionar com ninguém. Mas os anos foram passando e retomei uma vida ‘normal’. Comecei a sair mais e me abrir para o convívio. Nessa fase, já se aproximava a chegada dos anos noventa e eu passei a ter novas relações sexuais. Confesso que em algumas eu não usava preservativo e em outras sim.”
- Como você se sentia sobre isso? Afinal, você mesmo com o teste negativo sabia de alguma forma que tinha o vírus e estava contaminando outras pessoas.
“Sim, naturalmente. Quando você se relaciona e tem penetração sem camisinha com alguém que tem o vírus você contrai. O fato é que eu não queria encarar isso, ainda eram presentes as lembranças daquelas coisas horríveis com meu primeiro namorado. Mas hoje quando penso nisso não sofro, porque o que está feito está feito e não podemos voltar atrás para consertar.”
- Quando você resolveu fazer algo sobre essa situação? – pergunto.
“Resolvi procurar um médico e fazer outro teste e realmente eu era positivo como eu já sabia. Naquela época, não tinha nem remédios para o tratamento. O médico me olhou e disse; ‘- É, deu positivo, pode se preparar porque isso só vai lhe garantir seis meses de vida no máximo’. – Aquilo foi um terror para mim. Fui para casa, minha perspectiva de vida era apenas aguardar o pior acontecer. Passaram-se os seis meses e eu vi que nada estava acontecendo, nada mesmo nem doenças oportunistas e então comecei a parar de pensar sobre isso a todo instante. Alguns anos depois conheci o GIV.”
Ele termina mais um cigarro e permanece quase todo o tempo de pernas cruzadas.
“Foi traumático vê-lo morrer, definhar. Era horrível ver as coisas que aconteciam com ele. Eu imaginava que tudo aquilo iria acontecer comigo também." - G. A.
- Alguém consciente, alguém que não deseja repetir essa história. Hoje vivo com outro companheiro, há vinte anos, também HIV positivo, ele teve algumas doenças oportunistas, além de algumas deformidades no corpo. No inicio, tivemos dificuldades em ter de aderir ao preservativo, mas conforme recebíamos orientações médicas o introduzimos no relacionamento.
- Como se sente ajudando outras pessoas? Você encara como uma forma de redimir seus erros no passado, assim como ter contaminado pessoas que poderiam ser saudáveis hoje?
- Sinto-me bem e não encaro como forma de me redimir. Não posso mudar o que aconteceu.
- Qual o grande pesadelo do HIV?
“O medo de um dia me encontrar inválido. Apesar de, nesses vinte e seis anos, eu nunca ter sofrido por alguma doença oportunista, sempre há a possibilidade e para alguém como eu as complicações são bem maiores e talvez fatais em relação a uma pessoa saudável. Hoje, a juventude confia muito nos novos medicamentos. Só não compreendem que o organismo varia de pessoa para pessoa. Alguns conseguem superar os efeitos colaterais das medicações outros nem tanto. É um mal que se leva consigo para sempre.”
- E o preconceito?
“Pois é, outro dia, conversando com um cabeleireiro que sempre frequento o salão, ele me contou que outro amigo, também cabeleireiro, tinha AIDS. Disse que seria difícil o sujeito conviver assim, cortando o cabelo de outras pessoas e usando lâminas. Eu achei gozado, mas não comentei nada sobre mim. As pessoas não conhecem e sentem medo de conhecer, então surge o preconceito. As campanhas trabalham bem, só que todos precisam ter vontade de se aproximar do assunto.”
Era o último cigarro. Ao final da entrevista saí e deixei o G. A. com suas obrigações na ONG. Achei inusitado o G. não aceitar revelar-se, afinal ele já vive há muito anos com a doença e é ativista. Diante disso, começo a compreender o quanto esse assunto ainda é tabu e que estamos cercados de pessoas cruéis e ignorantes.
Fotografando pelo GIV enquanto espero a entrevista.
Confesso que hesitei um pouco quando recebi um beijo de cumprimento do G. no meu rosto, na primeira vez que o vi. Sua aparência não denuncia nada, mas o fato de saber que ele possui o vírus me fez hesitar, porém permiti. Eu sabia que só poderia vencer meus medos e preconceitos me dando a oportunidade de aproximação deles e assim questioná-los. Sem isso, eu seria só mais alguém com medo que convive na escuridão da ignorância. Na semana que vem, tenho uma festa de confraternização na ONG, está sendo ótimo conhecer novos amigos.
Relembre o pesadelo …
“Hoje nós sabemos que não há grupos de riscos, o que existe é o comportamento de risco. O comportamento de risco é caracterizado pela relação sexual sem preservativo. Através do sexo o vírus da AIDS passa de um homem para outro homem, do homem para a mulher e da mulher para o homem, passa sim da mulher para o homem, fui claro?” – Drauzio Varella – AIDS 30 Anos Depois – Fantástico – 2011.
Noite pré-parada gay. Minha amiga Angélica e eu estamos passeando pelas ruas sujas e escuras do centro da cidade. Paramos em frente ao bar Caneca de Prata. Compro bebida, fico conversando e observando ao redor. Nada demais, tento flertar, sem sucesso. Apenas um cara muito excêntrico para e aperta, por cima da calça jeans branca, o pau e discretamente me dá sinal verde para acompanhá-lo e chupá-lo, mas não dou atenção. Logo ao nosso lado, fora do bar, há algumas mesas, reconheço o Beto de Jesus, ícone gay Urso, está sorrindo e conversando com alguns amigos.
Minha amiga fica impaciente e decide caminhar mais um pouco para ver se encontramos um lugar para sentar e beber uns drinks. Estamos na calçada do Vermont. Angélica e eu paramos na esquina da Vieira. Percebo que em uma das mesas da calçada está Paulo Medeiros, 29 anos, advogado, membro da OAB. Conhecemo-nos na noite anterior. Ele grita meu nome. Eu e minha amiga resolvemos aceitar o convite de sentar à mesa com ele e seus amigos.
Enquanto bebíamos coquetel de frutas e conversávamos sobre diversos assuntos, eu também podia observar o tanto de casais gays que haviam se casado pela tarde em uma cerimônia coletiva. Estavam vestidos de fraque, segurando garrafas e bêbados. Era recente a aprovação da união gay no país.
Um deles gritou;
- Vamos tirar fotos do dark! Foi lá que nos conhecemos!
Eu esboço um sorriso.
Na mesa, o papo estava ótimo. Havia diversos personagens, assim como Ubirajara, 51 anos, analista de sistemas, quase sem cabelo, ri alto, fala alto e só sai com homens mais novos.
- Eu não poderia sair com alguém mais velho do que eu, senão eu estaria saindo com um morto!
Todos riem. Ele continua.
- Adoro caras delicados. Alguns dizem que o gay tem um lado feminino desenvolvido, mentira! Gay é gay. Mulher é mulher. Eu adoro caras com traços delicados. E acho que alguns caras mais novos gostam de caras mais velhos porque somos mais desencanados e sossegados.
Até concordei com ele e disse que já saí com vários.
- E foi bom? – Ele pergunta.
- Foi ótimo. – Respondo.
Ubirajara continua com seu discurso.
- Sou sortudo de estar aqui, nessa mesa, na Vieira, tomando “meus bom drink´s”, enquanto alguns casais héteros estão em casa vendo televisão e pensando sobre como consertar o problema do chuveiro.
Falamos sobre como revelamos que somos gays. Um dos caras sentados à mesa, não me recordo seu nome, disse que a avó o contou sobre ele ser gay.
- Ela me disse mais ou menos assim… “- Olha filho – estava ela a ouvir rádio e costurar- você vai nessas passeatas que estão falando no rádio? – se referia à parada gay – Daí então eu respondi – Não ‘vó’. – Nesse instante, ela parou e disse, ele relata; – Eu sei que você é! Você fazia isso e aquilo quando era criança. Só toma cuidado lá!”.
Rimos mais uma vez.
Júlio Mendes, também com seu parceiro, turista, recém-chegado do Pernambuco, 21 anos, cursa letras, disse que a primeira pessoa para quem ele contou ser gay foi a sua namorada.
- Eu a olhei e disse; – Sou Gay! Simples. – Quando contei sobre minha orientação sexual a minha terapeuta, ela disse que não me via como gay. Claro, nunca mais compareci a nenhuma sessão.
O papo continuou. Começamos a discutir sobre as leis para com a causa gay. Claro que o Paulo dominou o assunto. Ele tem um livro publicado sobre homoafetividade e, além disso, pesquisa sobre novas leis que respaldem os homossexuais em caso de algum tipo de discriminação. Parecíamos os boêmios da época do romantismo da Europa, nos deliciando com a bebida e o exercício do pensar. Falamos sobre o PLC122/2006 e como alguns gays, nem sequer sabem sobre o assunto.
- Estou recolhendo algumas assinaturas em prol da causa, mas dá raiva ver que alguns caras se negam a assinar ou sequer sabem algo sobre o assunto. – Diz Marcelo Fioratti, dono de um site sobre o PLC, não conta a idade, sempre namorou a distância, está triste por ter terminado seu namoro, agora fica na internet pelo celular, procurando uma balada para mais tarde.
Paulo e eu estamos nos beijando. É a primeira vez que a Angélica me vê beijando um cara. Ela está agora tirando um sarro e fala para todos na mesa que espera que um dia seu ex-namorado lhe conte que também é gay, que sempre foi gay. Estão todos rindo.
Depois de mais alguns minutos, pagamos a conta e fomos embora. O Ubirajara tenta oferecer para o Júlio a chave de seu apartamento, para que ele e seu companheiro transem um pouco antes de irem embora da cidade. O casal não aceita e acha que vão dar um jeito lá na república onde estão hospedados.
Acompanho a minha amiga até o metrô e depois, Paulo e eu seguimos para um hotel. Passamos a noite juntos, não transamos, apenas nos masturbamos.
- Nem sempre sexo, precisa ter penetração. – É o que ele me diz enquanto pega no meu pênis e me beija. Eu estava apenas olhando para o teto e pensando que na cama eu não me senti tão atraído por ele, só amizade parece algo mais divertido.
***
Na manhã seguinte, tomamos café na estação Paraíso, caminhamos muito na Parada. Conheci mais amigos dele, discutimos sobre monogamia, fidelidade e relações. Enquanto assistíamos ao desfile de pessoas que, sem o menor receio de mostrar o que há de mais excêntrico e honesto sobre elas, dançavam.
Parada Gay - São Paulo
Depois de todo divertimento. Eu e Paulo nos despedimos. No farol, ele põe o braço no meu ombro e um carro em alta velocidade com alguns caras voltando de uma partida de futebol, aos gritos, nos chamam de gays malditos. Entramos no Shopping Paulista e tiramos nossas camisetas de campanha pelo respeito e tolerância, nós ficamos com medo. Sabíamos que a Parada havia acabado e era hora de voltar tudo ao normal.
Através de textos com mescla de jornalismo, literatura e talvez toques de antropologia, este blog trata das peculiaridades da vida sexual dos homossexuais masculinos da cidade de São Paulo. Relacionamentos, reflexão e comportamento são os destaques.
TODA SEGUNDA - FEIRA
** Os nomes dos personagens são ficcionais para proteger a identidade dos mesmos aqui relatados.
"O Blog Tudo Sobre Eles, de Adriano Oliveira, fala sobre temas de comportamento e relacionamento especificamente para o público gay. O autor utiliza sua própria vivência para falar de sexo, namoro, fidelidade, e muitos outros aspectos da vida dos homossexuais masculinos."
- Jornal Destak
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Autor
Adriano Silva, 24 anos, São Paulo - Jornalista
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